

Onde paras ó Musa, há tanto esqueces
falar do que te dá poder? Te pões
a dar luz a vis temas e escureces?
Gastas fúrias a cantar fúteis canções?
Volta, Musa esquecida, e se redima
em gentis versos tempo em vão perdido,
canta ao ouvido que teus lais estima
e à pena engenho e tema te há trazido.
Musa indolente, em meu amor vigia
se o tempo lhe gravou rugas na face,
faz troça da ruína e nesse dia
despreza os seus estragos onde passe.
Se o Tempo gasta a vida, mais depressa
dês fama a meu amor que a foice impeça.
William Shakespeare, «Os Sonetos de Shakespeare», Bertrand (2002)
William Shakespeare, «Os Sonetos de Shakespeare», Bertrand (2002)
(Tradução de Vasco Graça Moura)